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id da página: 9487 Tema Analogia

Tema Analogia


ANÁLISE DO TEMA DA ANALOGIA

Os que defendem a analogia no ser alegam a seu favor que o ser finito é tão dissemelhante do infinito, que entre o ser do homem e o de Deus, há apenas uma analogia de proporção.

Não é de admirar que se afirme haver uma incomensurabilidade entre nós e Deus, pois há incomensurabilidade até entre o que se dá aqui, como entre o diâmetro e a circunferência, ou entre a hipotenusa de um quadrado e os lados deste.

O infinito não tem medida; o infinito é medida qualitativa do finito.

Essas medidas não são unívocas, mas análogas (de participação), afirmam os que defendem a analogia do ser.

Na analogia, há a participação do analogado ao analogante, e tal participação indicia a identificação mais remota ou próxima, segundo o nosso esquema.

Na ordem noética, a participação chama-se analogia; na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.

Os esquemas noéticos, que, por abstração, construímos, participam dos esquemas concretos dos fatos, que os captamos apenas como quididades noéticas, reduzidas a esquemas eidéticos. Nesta maçã, por sua vez, o seu esquema concreto participa do esquema essencial da maçã, pois ela não esgota as possibilidades desta, mas apenas um sector dessas possibilidades, da mesma forma que esses três livros não esgotam, enquanto três, no esquema concreto de três, aqui e agora, hic et nunc, as possibilidades concretas do esquema essencial três, que é um pensamento do ser, e que pode, concretamente, surgir em três cadeiras, três mesas, etc. Portanto, o esquema essencial (o arithmos, no sentido pitagórico, já por nós estudado em "Teoria do Conhecimento") é do ser, subsistente no ser, é um poder do ser, cuja existencialização (para empregarmos uma expressão bem aviceniana) se faz por participação. Esses livros são três, o três há neles, concretamente, não está neles, por que o arithmos três, neles concrecionado, é participante de três como arithmos essencial (esquema essencial).

Portanto, há nesses três livros uma analogia com três, e uma analogia com três mesas, cadeiras. E são eles análogos porque participam do mesmo esquema essencial; por isso, na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.

Ora, todo o ente finito participa do Ser, esse parte caperem, de São Tomás, pois o Ser supremo inclui todas as perfeições em sua mais elevada e acabada realização ou seja, segundo suas completas possibilidade, pois tudo quanto há, há no Ser, nele acontece, nele se dá, e como nada se dá fora dele, contém todas as perfeições, de que uma perfeição parcial, este ente finito, hic et nunc, é apenas participante. Por isso, entre o ser finito, ou melhor entre o ser criado e o Ser supremo, criador, há apenas uma analogia de proporção. Cada ente reflete parte dessa perfeição, na sua perfeição, no seu ato, pois, como sabemos, na escolástica, o ato é a perfeição da potência, o que é ato é a atualização de uma aptidão, que enquanto tal é imperfeita, e perfeita-se (perdoem-nos o emprego do verbo), no ato.

Agora, se considerarmos o conteúdo conceitual, veremos que há nele uma analogia, quando aplicado a vários entes. Se considero a cadeira um "móvel composto de assento, encosto e pernas, com a função de permitir que uma pessoa nela se assente", entre esta cadeira e aquela, o conceito, que nelas é comum, porque nelas considera apenas aquelas notas que têm em comum, é univoco. Ou em outras palavras, há univocidade conceitual entre essas duas cadeiras. Nelas, estou desprezando tudo o mais que as pode diferenciar, como o ser esta de madeira, aquela de metal, etc. Há, deste modo, uma certa identidade entre esses objetos, identidade parcial, pois desconsidero o que nelas é heterogêneo.

Mas o conceito de ser apresenta uma particularidade que o diferencia dos outros. É que o que é heterogêneo é ainda ser, e não apenas o que há de homogêneo, o que não se verificava no exemplo anterior. Não há, aí, portanto, identidade no que expressa, porque se considerarmos que ser apenas expressa uma parte dos objetos (isto é, se admitimos que o conceito de ser tem uma representação parcial) as notas heterogêneas seriam extrínsecas ao ser, e neste caso seriam idênticas ao não-ser, o que nos colocaria num verdadeiro contra-senso.

Portanto, concluem os tomistas, o conceito de ser é apenas proporcional entre os seres, não é unívoco, mas apenas análogo.

Mostram-nos os tomistas que todo conceito unívoco pode ser expresso por um termo abstrato e por um termo concreto. O termo abstrato expressa uma abstração "formal", por ex. dureza. Expressam eles certa forma ou qualidade, isolada do seu sujeito, (exprimit subiectum sed non totum). Quando digo que esta casa é verde, considero-a dotada da cor verde. Indica o sujeito integralmente (a casa), mas qualifica-o por uma de suas determinações (exprimit subiecto totum, sed non totaliter = expressa todo o objeto, não porém totalmente). É o termo concreto. O termo concreto expressa o próprio sujeito afetado de uma determinação particular. É o resultado de uma abstração "total", isto é, efetuada sobre o todo. Quando digo "negro" refiro-me a um certo sujeito dotado da "negrura".

Posso predicar o termo concreto do sujeito, mas o termo abstrato não pode ser predicado do sujeito. Posso dizer que este homem é negro, não posso dizer porém que ele é negrura, pois não posso considerar a parte como idêntica ao todo.

O termo ser empregado expressa sempre o sujeito totalmente e sob todos os aspectos e relações (exprimit subiectu totum et totaliter = expressa todo e totalmente o sujeito). O ser, por abstrato que se queira tornar, não exclui, não separa, não isola um aspecto parcial do sujeito; desta forma, no ser, a abstração total e a abstração formal se equivalem. Se digo que este livro existe ou que este livro é sua existência, é indiferente, porque existe e existência são equivalentes.

Fazem deste modo os tomistas questão de salientar que o ser não é nunca um aspecto, um elemento, uma determinação dissociável, mesmo quando considerado logicamente, dos outros, pois quaisquer das outras determinações são intrínsecas e formalmente o ser.

Esse o aspecto misterioso do real, unidade na diversidade e diversidade na unidade. Quando conceitualizamos a ideia de ser, temos uma ideia, mas confusa (de confundere, de fundir com, misturada), por isso analógica do ser, que na sua essência nos escapa, isto é, temos um saber quiditaitvo do ser não quidditative, isto é, exaustivo até à sua essência, o que froneticamente, se o tivéssemos, por fusão com ele, nos poria em estado de beatitude, o que, pelos tomistas, nos é negado nesta vida.